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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Estudo falso é aceito em mais de 150 revistas científicas

Com nome de autor e instituição inexistentes, artigo é submetido a mais de 300 periódicos para aprovação

WASHIGTON - No dia 4 de julho, boas notícias chegaram pelo correio a Ocorrafoo Cobange, um biólogo do Instituto Wassee de Medicina, conta a revista “Science”. Era a carta oficial de aceitação de um artigo que ele tinha apresentado dois meses antes ao “Journal of Natural Pharmaceuticals”, descrevendo as propriedades anticancerígenas de líquens.

“Mas qualquer revisor com um conhecimento de química em nível de ensino médio deveria ter rejeitado o artigo imediatamente. Isto porque suas experiências eram tão falhas que os resultados ficaram totalmente sem sentido”, afirmou John Bohannon, que escreveu o trabalho falso e contou toda sua saga num artigo no site da Science.

Ele explica que nem o biólogo Ocorrafoo Cobange, nem o centro de pesquisa Wassee existem. Mesmo assim, nos últimos dez meses, encaminhou 304 versões do artigo a revistas científicas “open access”, ou seja, que têm conteúdo aberto e gratuito na internet. Incrivelmente, mais da metade foi aceita para publicação.

A ideia do autor foi exatamente questionar este tipo de publicação que, conta ele, começou há uma década como uma alternativa idealista e humilde às revistas com assinaturas tradicionais. Mas segundo ele, “a maioria dos jogadores é obscura”.

O “Journal of Natural Pharmaceuticals” se descreve como uma revista com alta qualidade e com editores e membros ocupando cargos em instituições acadêmicas de todo o mundo. Um dos maiores de acesso público, ele pertence à Medknow, uma empresa baseada em Mumbai, na Índia. Eles aceitaram o artigo de Cobange, pedindo apenas algumas mudanças superficiais, como formatos de referências.

Num e-mail à Science, o editor-chefe Mueen Ahmed, professor de Farmácia da Universidade King Faisal, na Arábia Saudita, afirma que a revista será permanentemente encerrada até o final do ano. “Sinto muito por isso”, afirmou no documento.

“A aceitação foi a norma, não a exceção”, critica Bohannon. Ele conta que o artigo foi aceito por revistas mantidas por grandes indústrias, como Sage e Elsevier, e por instituições acadêmicas de prestígio, a exemplo da Universidade Kobe, no Japão. Foi aceita até por revistas cujo tema do estudo era inapropriado: “Journal of Experimental & Clinical Assisted Reproduction”. O autor conta que a “PLOS ONE” foi a única que se atentou para os problemas do trabalho, rejeitando-o duas semanas depois de recebido.